O mercado está seguro?


13/04/2016  

Uma análise de especialistas sobre a situação do seguro no Brasil em tempos de crise

Crise! Esta palavra tem tomado conta dos noticiários, das preocupações e do cotidiano do brasileiro. E não dá mesmo para não falar do problema, que já atinge todos os setores da economia e todas as classes da população. O Tudo Sobre Seguros, então, decidiu ouvir a opinião de especialistas ilustres da indústria de seguros sobre os reflexos da crise no setor.

Seguro, mas nem tanto

Em meio a tantos anúncios de perdas, prejuízo e quebradeira na economia nacional, o mercado de seguros é ainda um dos poucos segmentos que pode se orgulhar de ter anunciado resultados positivos em 2015. Segundo a Confederação Nacional das Seguradoras (CNSeg), a arrecadação de prêmios e contribuições do setor cresceu cerca de 10% no último ano. Pode parecer pouco para um segmento que chegou a alcançar níveis de crescimento de 20% nos anos anteriores e representa cerca de 6% do PIB nacional.

O economista Francisco Galiza, sócio da consultoria Rating de Seguros, chama a atenção para os números. “Em 2015, o faturamento total do seguro foi 10% mais alto que em 2014, porém, esse número está camuflado pela melhora concentrada nos resultados do VGBL, produto de acumulação financeira, pouco vendido pelos corretores de seguros. Quando analisamos somente os produtos de seguros (automóvel, pessoas, residencial, empresarial etc), sem as operações de saúde suplementar, a variação acumulada é bem menor, em torno de 5%, quando comparada ao mesmo período de 2014”, explica, lembrando ainda que a inflação média anual em 2015 foi de cerca de 9%.

Bruno Kelly, sócio da Correcta Seguros, no entanto, ressalta a importância do resultado. “No ano de 2015, quando o PIB real do país diminuiu cerca de 4%, os seguros cresceram um pouco acima da inflação. Trata-se de resultado muito significativo frente ao que temos assistido no Brasil recentemente”, comemora.

Ele lembra ainda as dificuldades que o setor tem enfrentado nos últimos meses, o que reforça a relevância dos números positivos. “A crise econômica traz a reboque diminuição dos investimentos por parte do empresariado, maior índice de desemprego, redução do poder de compra da população em geral e um clima de pessimismo. Esse cenário afeta, por exemplo, os seguros de vida em grupo, pois obriga as empresas reduzirem seus gastos. Isto, associado à redução do quadro, diminui a receita de corretoras e seguradoras”, comenta.

Segundo dado divulgado recentemente pela Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), o setor de planos de saúde diminuiu de tamanho em 2015, pela primeira vez em 15 anos.  No ano passado, mais de 700 mil pessoas deixaram de ter plano de saúde, seja por conta dos altos preços, seja por perda do emprego, que garantia o benefício. A queda foi de 1,5% em relação a 2014.

Oportunidades para os corretores

Na Carta de Conjuntura do Setor de Seguros, de fevereiro de 2016, divulgada pelo Sincor-SP, registra-se que os seguros de pessoas tiveram expansão de 7% no faturamento, enquanto o segmento de ramos elementares, que inclui o seguro de automóvel, apresentou 3% de evolução.

Estes números fracos têm preocupado os corretores de seguros, conforme explica Alexandre Camillo, presidente do Sincor-SP. “Apesar do crescimento, em 2015 foram necessários ajustes e reavaliação de processos e o ano de 2016 demonstra que a situação se agravou. Por exemplo, as vendas de automóveis (carros, caminhões e ônibus) novos tiveram queda de 26,55% em 2015 em relação ao ano anterior e 2016 já está sendo pior ainda, fazendo com que os corretores percam oportunidades de negócios e sofram outras consequências”, diz.

Mas nem tudo é má notícia. De acordo com Camillo, o Sincor-SP está estimulando o corretor de seguros na venda de novos produtos e no aproveitamento pleno da carteira. “O corretor de seguros precisa se reinventar, se qualificar, se adaptar aos novos tempos. Precisa se manter atento às oportunidades, pois passado o momento da crise – que é passageira – temos um potencial de crescimento pouco comparável a qualquer outro setor”, comenta, lembrando que o Sindicato tem investido em eventos, informativos e outras ações, como o lançamento do portal de currículos, chamado “Empregos Seguros”.

Kelly corrobora o potencial do mercado mencionado por Camillo, citando alguns produtos que, mesmo em tempos de crise, têm apresentado maior procura. O seguro D&O (Directors & Officers) é um deles, impulsionado pelo aumento dos riscos sofridos por empresários e executivos em um momento em que muitas empresas estão em dificuldades financeiras e de gestão.

“As coberturas de sobrevivência e previdência também tendem a apresentar resultado positivo, pelo caráter de contribuição mensal praticamente compulsória, e os seguros de crédito têm sido bastante procurados, pois as empresas que vendem a prazo precisam proteger seus recebíveis contra eventuais situações de inadimplência. Isso acaba trazendo resultados positivos para as companhias e corretores”, lembra.

Talvez por isto, o setor tem atraído cada vez mais profissionais. Ainda de acordo com o Sincor-SP, o número de corretores de seguros atuantes no Estado de São Paulo cresceu 5% nos últimos 12 meses, até janeiro de 2016, chegando a um total de 38 mil profissionais.

O que o futuro nos reserva

O ano de 2016 ainda não deve ser tão positivo para a indústria de seguros. Na opinião de Alexandre Camillo, “uma vez superada a crise política, provavelmente teremos a retomada do crescimento, que quando vier terá força pela demanda reprimida. Como lado positivo, este momento de turbulências deve nos servir como uma oportunidade de aprendizado. Dessa crise fica o legado de parar, pensar e se reinventar”, comenta.

Para Bruno Kelly, o setor não deve crescer acima da inflação. Mas, “apesar deste cenário, ainda não identificamos cortes significativos de empregados nos quadros das seguradoras e corretoras. Ajustes podem e devem ocorrer, mas de forma moderada, num quadro de adequação de despesas a essa nova realidade recessiva”, estima.

A crise política preocupa, mas Kelly adverte que “a simples mudança de governo não resolve a crise econômica, que tem viés técnico. Ajustes impopulares devem ser realizados, como por exemplo, a reforma da previdência social e medidas duras de ajuste fiscal. De outra forma, a sensação de esperança e melhora não será sustentável no médio e longo prazo”. Mas o analista conclui com mensagem de otimismo: “a crise é séria, mas vai passar!”