Ensinamentos da tragédia


30/11/2012  

Furacão Sandy, nos EUA, pode servir de alerta para o mercado de seguros brasileiro

Não é só nos países menos desenvolvidos que as catástrofes climáticas arrasam vidas, cidades e economia. Que o digam os mais de US$ 20 bilhões que deverão ser gastos pelas seguradoras norte-americanas em indenizações de sinistros causados pela supertempestade Sandy, ocorrida no final de outubro e início de novembro. Isso sem falar nos prejuízos financeiros, que podem ultrapassar os US$ 50 bilhões devido a interrupções no fornecimento de energia e nos serviços de transporte, por exemplo.

Por esse motivo, companhias resseguradoras dos Estados Unidos já estimam que Sandy é a segunda catástrofe mais cara para o país, atrás apenas do furacão Katrina e deverá provocar mudanças nas renovações de contratos e renegociações de preços, mesmo após um primeiro semestre calmo, sem grandes sinistros.

Aprendizado brasileiro

Tragédias podem acontecem em qualquer lugar do mundo e a qualquer hora, sejam elas provocadas pela natureza ou pelo próprio homem. Mas o que aconteceria ao mercado de seguros brasileiro no caso de uma ocorrência destas proporções atingindo São Paulo ou Rio de Janeiro, por exemplo, as duas maiores metrópoles e centros financeiros do país, assim como Nova York? O setor estaria preparado não apenas para pagar as indenizações mas também para atender adequadamente seus clientes?

Segundo o analista do IRB-Brasil Re Osvaldo Haruo Nakiri, num caso semelhante, a organização do nosso mercado pode não ser a ideal e, talvez, houvesse necessidade de apelar para o famoso “jeitinho brasileiro”. “Penso que as equipes das companhias seguradoras teriam de improvisar, mas se sairiam a contento. Digo isso dando como exemplo a atitude da HDI, que tem enfrentado situações extremas durante as grandes enchentes que atingem o Sul do Brasil, onde a empresa apresenta atuação bastante ativa. Em uma dessas enchentes, quando a situação ficou mais delicada, a empresa montou estruturas improvisadas nas cidades mais atingidas para tentar atender com mais rapidez e eficiência os seus segurados. Não é à toa que ela foi eleita, tempos depois, a melhor seguradora na região”, relembra.

Felizmente, com exceção do risco de enchentes, que aqui é grave, o Brasil ainda é menos afetado por catástrofes naturais que a maior parte do mundo. O mesmo ocorre com a América do Sul. Um levantamento da MunichRe mostrou que, entre 1980 e 2010, a América do Sul respondeu por apenas 7% do total mundial de eventos negativos da natureza, 3% das fatalidades, 2% do valor global das perdas e cerca de 1% do valor total de indenizações relacionadas a elas. Em comparação, na América do Norte e no Caribe, tais percentagens foram, respectivamente, de 24%, 27%, 40% e 66%(http://www.munichre.com/app_pages/www/@res/pdf/media_relations/company_news/2011/2011_11_11_app1_en.pdf)

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Importância da prevenção

Ao atingir a Costa Oeste dos EUA e as cidades de Nova York e Nova Jersey, onde tradicionalmente não são verificados fenômenos naturais tão intensos, o furacão Sandy encontrou áreas vulneráveis, como a rede de metrô de Nova York, que ficou alagada por vários dias, atrapalhando o bom andamento da cidade.

A localidade estava despreparada em termos de infraestrutura, mas o mercado de seguros, não. Os Estados Unidos mantém o Programa Nacional de Seguros contra Enchentes, que inclui uma cobertura contra inundações em imóveis. Apesar de ser um produto que funciona mais como uma garantia ao financiamento imobiliário do que como um amparo às famílias moradoras destes lares, não deixa de ser uma proteção para a economia como um todo.

Mas pelo que a experiência norte-americana ensinou, a prevenção foi o melhor remédio. Em relação a um universo de 50 milhões de pessoas atingidas ao furacão, o número de mortos e feridos foi bem menor do que se as pessoas

Antes mesmo da chegada do furacão a Nova York, o prefeito Michael Bloomberg ordenou a retirada preventiva de 375 mil moradores das regiões costeiras. Em Washington, o presidente Barack Obama apressou-se em afirmar que as autoridades tinham assegurado ao governo federal que dispunham de recursos para lidar com o furacão. E tratou de oferecer rapidamente ações para mitigar os efeitos nefastos do fenômeno, enquanto ele ainda estava sobre o Caribe, aproximan-se do seu país.  “Nós temos que cortar a burocracia e não nos atolarmos em um monte de regras”, disse Obama, nove dias antes do pleito que o manteve à frente da presidência.