Terremotos


08/06/2012  

Um desafio para o mercado de seguros no Brasil e no mundo

Uma turbulenta coincidência. No mês de maio, o norte da Itália e o estado brasileiro de Minas Gerais foram atingidos, em curto espaço de tempo, por um dos mais temidos fenômenos da natureza: o terremoto.

No país europeu, dois tremores, com magnitude de 6,0 e 5,8 na escala Richter, além de outros menores ocorridos nos dias seguintes, causaram a morte de cerca de 20 pessoas e sérios prejuízos à região da Emilia Romagna, uma das mais ricas e produtivas do país em atividades industriais.

Em Montes Claros, Minas Gerais, um terremoto com magnitude de 4,0 na mesma escala mostrou que, ao contrário do que se costuma imaginar, o Brasil não é terra totalmente imune a tais ações extremas da natureza. Apesar do grande susto, felizmente não foram registrados feridos ou grandes prejuízos materiais ou financeiros.

Cultura estrangeira  

Na Europa, nos Estados Unidos e no Japão, onde esses fenômenos naturais extremos são comuns, “a cultura de gerenciamento de riscos, especialmente decorrentes de catástrofes naturais é muito forte e todas as seguradoras que operam nestas regiões contratam resseguro de catástrofe”, afirma Walter Almeida, consultor de resseguros.

Ele conta que o terremoto com maior impacto para o mercado de seguros foi o do Japão, ocorrido em março de 2011 e que provocou uma tsunami que resultou na desativação da usina nuclear de Fukushima.

Adelson Almeida Cunha, diretor da Promass Re Corretora de Seguros, explica que em 2011 os prejuízos causados por terremotos foram estimados em US$ 308 bilhões, dos quais apenas 30% a 35% estariam amparados pelo mercado securitário. “Os três últimos eventos importantes verificados no mundo geraram perdas para a indústria de seguros da ordem de US$ 61 bilhões, com o Japão na frente, com US$ 40 bilhões, seguido da Nova Zelândia, com US$ 13 bilhões, e do Chile, com US$ 8 bilhões”, diz.

O mercado está preparado?

Os terremotos não são coisa rara por aqui. De acordo com o Serviço Geológico do Brasil, o maior terremoto registrado no país ocorreu em 1955 e teve seu epicentro a 370 km ao norte de Cuiabá (MT). A magnitude atingiu 6,2 graus na Escala Richter. Outros tremores importantes foram sentidos em Porto Alegre, em Minas Gerais e em praticamente todo o Nordeste.

Advertisements

Ainda segundo Walter Almeida, “em 9 de setembro de 2007, o Brasil registrou a primeira morte causada por terremoto, a da menina Jesiane Oliveira Silva, de 5 anos, no povoado de Caraíbas, a 35 km de Itacarambi, em Minas Gerais. O tremor de 4.9 graus na escala Richter causou avarias em todas as 75 construções do local e deixou seis outras pessoas feridas, duas delas em estado grave. Depois, foi ainda registrada uma série de outros pequenos abalos na localidade, todos atribuídos à movimentação de uma falha geológica existente no subsolo da região, com cerca de quatro quilômetros de extensão e um quilômetro de profundidade”, diz.

Mesmo sendo o risco de terremoto pouco conhecido no Brasil, ele faz parte do elenco de coberturas disponibilizadas pelo mercado de seguros há anos. É o que garante Adelson Almeida, que alerta: “entretanto, não é muito comum encontrar essa cobertura dentro dos pacotes ofertados ao público consumidor. Essa garantia pode ser encontrada em alguns produtos, principalmente aqueles que cobrem riscos empresariais. Isso acontece porque o consumidor raramente enxerga aí um risco em potencial”. Ou seja, o brasileiro ainda não tem a cultura de se proteger contra este risco porque não há registros significativos e frequentes de acidentes decorrentes de terremoto.

Sérgio Canesso Viegas, gerente de Vida da Tokio Marine Seguradora, corrobora a informação: “no que se refere aos seguros de pessoas, no Brasil, as mortes causadas por terremotos e outras convulsões da natureza como furacões, ciclones, maremotos e erupções vulcânicas são tratadas como riscos excluídos. Já no exterior existem fundos constituídos pelo Estado para suportar estas perdas”.

Ação do Estado

Com relação à atuação do Estado na proteção dos cidadãos em caso de catástrofes naturais, Maurício Tadeu Barros Morais, representante da Ways Consultoria, é favorável à manutenção de fundos para cobrir perdas públicas. “Os riscos catastróficos e suas consequências, assim considerados problemas de ordem da defesa civil, não devem ser transferidos para contratos particulares de seguros, operados pelas seguradoras da iniciativa privada. Essas empresas devem constituir, segundo normas e regras próprias, reservas e provisões técnicas que servirão para garantir os eventos previstos nos contratos levando-se em conta o princípio do mutualismo e, a priori, riscos particulares e individuais”, opina.

Para atender a população no caso de eventos catastróficos, têm-se os chamados seguros sociais. Afinal, manter a ordem pública e serviços essenciais é dever constitucional do Estado, tais como distribuição de energia, fornecimento de água, saúde pública, atendimento da rede hospitalar, garantia de educação básica, transportes públicos etc.